Uma antiga líder minha costumava dizer: “Não corra de conversas difíceis!” Não sei se posso creditar a frase a ela ou se ela retirou de alguma outra referência ou pessoa, mas, fato é que elas são essenciais para nós. Isso mesmo, não é que elas sejam apenas interessantes, elas são cruciais para nosso crescimento enquanto indivíduos e profissionais.

Por que, então, fugimos tanto delas?

Eu sempre achei conversas difíceis estimulantes porque as encarava como desafios; no entanto, sabemos como elas podem ser desagradáveis. Isso porque, justamente como o nome já adianta, elas não são nada fáceis. Além disso, com frequência elas requerem que cedamos ou abramos mão de algo. E nós não temos essa prática de buscar coisas que nos obriguem fazer sacrifícios e aceitar perdas, não é?

Yuval Noah Harari tenta explicar um pouco disso em uma parte do seu livro ‘Sapiens’, que, inclusive, já citei aqui em outro texto. Ele fala como o Cristianismo pregava que fizéssemos sacrifícios em terra, doássemos parte do que tínhamos e nos mantivéssemos puros, sem os pecados capitais e excessos, para que atingíssemos o paraíso no pós-morte. Entretanto, outras ideologias posteriores, que, segundo ele, poderiam ser bem encaradas como religiões também, defendiam exatamente o oposto e, assim, ganharam grande popularidade.

Olhe para o capitalismo e, junto dele, o consumismo e o hedonismo. O que eles defendem se não que busquemos incessantemente aquilo que nos traz ganhos, prazeres e status social? Por que perder tempo procurando algo que propositalmente nos trará desconforto?

A verdade é que acabamos, assim, fugindo de tudo aquilo que não nos agrada, não nos torna mais belos ou mais ‘bem-queridos’ no meio social. É aí onde as conversas difíceis escapam de nós. Ao contrário disso, elas trazem um risco de que o outro não concorde com a gente e de que ocorra um conflito. Só que, ao invés de aceitarmos o desafio com gosto e praticarmos o melhor da nossa Comunicação Não-Violenta (falei dela neste texto), preferimos fugir e evitar o conflito.

Repare, fazemos isso mesmo nas pequenas coisas da nossa vida. Fugimos dos aparelhos que menos gostamos na academia, evitamos comer coisas que não gostamos nas refeições, ignoramos ou nos distanciamos de pessoas que não nos agradam, etc. Reforçamos este padrão todos os dias e é aqui que mora o perigo!

O filósofo Mario Sergio Cortella fala, em uma palestra, sobre o risco que sofremos ao conviver apenas com pessoas que concordam com a gente. No vídeo abaixo, ele discorre como evitamos o nosso envelhecimento ao simplesmente conviver com pessoas que discordam de nós. E quem, de fato, gosta de nós e nos respeita não terá medo de discordar quando necessário. Este é, inclusive, um “sinal afetivo”, segundo ele (falarei melhor sobre o conceito de ‘Comunicação Afetiva’ mais adiante). Além disso, conviver com a discordância e com as conversas difíceis nos ajuda a “superar, inovar e transformar”, seja um projeto no trabalho ou uma dificuldade/dilema pessoal.

“Uma oposição frágil fragiliza um governo. Um concorrente burro te emburrece. Um adversário fraco te enfraquece.”

Mario Sergio Cortella

Portanto, as conversas difíceis, ao contrário do que muitos de nós pensamos, impedem que estejamos acomodados, envelhecidos e estagnados. Elas nos impulsionam para o desenvolvimento e crescimento. Elas aumentam nosso repertório (lembra que comentei dele em outros textos?) e nos tornam, assim, mais “ricos”. Tendo isso em mente, não corra de conversas difíceis!

Uma vez que aceitamos participar dessas conversas, precisamos, então, saber como melhor lidar com elas, não? É sobre isso que vamos ver a seguir.

TÉCNICAS PARA CONVERSAS DIFÍCEIS

Em nosso dia a dia, passamos por diversas conversas difíceis como: falar com um liderado de baixa performance, falar com um cliente sobre uma contraproposta, comunicar uma grande mudança no negócio, etc. Como podemos melhor participar delas?

  • Liderado de baixa performance: com calma, argumentos lógicos e metas de melhoria;
  • Cliente para contraproposta: com bons argumentos de defesa e um plano de ação;
  • Mudança no negócio: com uma estratégia bem pensada em uma reunião com todos e em tom calmo.

Esses são apenas alguns exemplos. Mas há, sim, uma regra de ouro que é universal a todos os tipos de conversas difíceis: não ignore as emoções envolvidas!

Sobre isso, vamos ver algumas técnicas, abaixo, que também podemos aplicar em qualquer caso:

Antes da Conversa

  • Reconhecer as emoções da(s) pessoa(s) e as suas, seus sentimentos e necessidades. Lembre que reconhecer a real necessidade do outro e expressar a sua são fatores-chave para a Comunicação Não-Violenta.

Durante a Conversa

  • Fique atento(a) à postura corporal do outro (para reconhecer sua emoção) e a sua também. Ela fala mais do que a nossa linguagem verbal. Reveja algumas dicas sobre ela n este texto;
  • Identifique a causa da emoção. Uma vez que diagnosticar a emoção, sentimento ou necessidade da(s) pessoa(s) e suas, aceite-as e, a partir delas, vá para a ação.

No final da Conversa

  • Gerenciar as emoções. Este são o segundo e o quarto pilares da Inteligência Emocional (falei deles em textos específicos, confere lá!). Depois que as cartas estiverem na mesa, é importante que você seja capaz de gerenciar as suas emoções e o relacionamento com o outro de forma a alcançarem, juntos, o melhor resultado;
  • Coloque a lógica. Além de trabalhar a sua Inteligência Emocional, é interessante usar ao máximo a lógica e a razão para chegar a uma decisão final e concluir a conversa. Monte também um plano de ação e negocie.

Uma dica especial para te ajudar em todas as partes da conversa é valer-se da chamada Comunicação Afetiva.

COMUNICAÇÃO AFETIVA COMO FERRAMENTA PARA A INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

A comunicação e o afeto têm um papel fundamental na forma como reagimos às situações e coisas inesperadas (como o contexto em que vivemos já há alguns meses, por exemplo). Mas, cuidado com a forma como você interpreta a palavra “afeto”. Baruch Espinoza influencia bastante o tema. Para ele:

“[…] por afeto, compreendo a afecções do corpo, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída”

Baruch Espinoza

Portanto, pelas expressões do meu corpo, posso ter mais chances de reagir melhor ou não. Uma Atitude Afetiva, então, promove um movimento de encontro de corpos e gera afecção, paixão, conflito (já vimos que é difícil e ruim fugir deles), intimidade e desenvolvimento.

Mas, claro, tudo depende da forma como nos colocamos nesse encontro. Para isso, é importante que desenvolvamos a chamada Consciência Afetiva. Ela permite que nos coloquemos na comunicação sabendo, de antemão, que podemos causar alteração no outro e que podemos, também, potencializar o outro e nossa ação.

Como podemos trabalhar essa Consciência Afetiva?

Ela é uma tríade entre os seguintes elementos: Diálogo, Escuta Ativa (falei mais dela neste texto) e Visão Sistêmica.

Como podemos trabalhar essa Consciência Afetiva?

A ideia é que, quando estamos com mais pessoas, naturalmente criamos algo, um corpo de diálogo e afeto. Esse encontro de quem fala e quem escuta gera um campo (de experiências e de energias) que gera, por sua vez, mais ou menos potência para quem está ouvindo e quem está escutando.

O objetivo aqui, portanto, é ter ferramentas empáticas, fundadas na intenção, para exercitar a nossa expressão, transmissão e recepção e, assim, alcançarmos empatia, harmonia e compreensão. O problema é que, assim como somos estimulados a correr de coisas que nos deixam desconfortáveis (como as conversas difíceis), as ferramentas tecnológicas (desde a imprensa de Gutemberg) também acabam estimulando mais o monólogo que o diálogo. Elas incentivam que escolhamos exatamente o

que e quando consumir um conteúdo. Por isso, acabamos nos tornando avessos à audição de coisas distantes dos nossos gostos ou formas de pensar. Afinal, parece fazer mais sentido sempre buscar coisas das quais gostamos e com as quais concordamos, não?

“Em um mundo de permanente poluição visual e especialmente sonora, não é surpresa que estejamos perdendo a nossa capacidade de ouvir.”

Julian Treasure

Desta forma, para desenvolver nossa consciência afetiva, podemos tomar algumas medidas:

#1 Expandir repertório. É super importante procurar consumir informações e conteúdos diferentes dos nossos habituais ou favoritos, para que possamos aumentar a nossa capacidade de audição e nosso repertório. Toda vez que falamos com alguém é a partir do nosso mapa de mundo. E, toda vez que escutamos alguém, também o fazemos a partir do nosso mapa de mundo. Quanto mais expandimos este, mais ferramentas temos para entender o outro e chegarmos a soluções ganha-ganha, boas para as ambas as partes.

#2 Filtros de escuta. Outro ponto importante, além de expandir repertório, é atentar-se para os seus filtros de escuta. Todos nós temos os nossos e, se não temos consciência deles, criamos ruído na comunicação. Precisamos, então, ativar nossa Inteligência Emocional, perceber que o conflito está acontecendo, os nossos filtros, quais emoções estão envolvidas e, então, cuidarmos da relação ‘corpo-diálogo-afecção’. O ruído não é um problema, é uma oportunidade de chegarmos a um entendimento maior e a uma relação mais saudável.

Em resumo, desenvolver Consciência e Comunicação Afetivas é gerarmos consciência desse corpo de diálogo entre 2+ pessoas, minimizando os ruídos e tendo Inteligência Emocional para resolver os problemas quando eles acontecem. É cuidar do conflito e transformá-lo em aprendizados. Toda conversa difícil que seja um diálogo torna-se uma conversa mais rica.

Para isso, podemos utilizar alguns passos, que são resumidos na sigla R.A.S.A:

  • Receber;
  • Acolher;
  • Sintetizar;
  • Arguir (validar uma comunicação).

E aí, mais preparado(a) agora para reconhecer a importância do conflito e das conversas difíceis e se colocar neles com consciência e comunicação afetivas? Pronto(a) para transformar essas conversas em diálogos ricos que te permitam aprender, superar, inovar e transformar?

Por fim, termino com uma frase do Dale Carneguie, em seu famoso livro ‘ Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas’:

“Em lugar de condenar os outros, procuremos compreendê-los. Procuremos descobrir por que fazem o que fazem. Essa atitude é muito mais benéfica e intrigante do que criticar; e gera simpatia, tolerância e bondade.”

Dale Carnegie

P.S.: Os conceitos e ferramentas deste artigo retirei do curso ‘Inteligência Emocional’ da Conquer.

Ana Carolina Lafuente
Por Ana Carolina Lafuente

Carioca de nascença, paulista de coração, meio brasileira e meio espanhola. Ana Carolina é formada em Publicidade e Propaganda pela ESPM Rio. Apaixonada por comportamento humano, começou a se aproximar da área de Pessoas na empresa júnior da faculdade e não largou mais dela desde então. Descobriu seu amor pelo empreendedorismo e seguiu sua carreira ajudando principalmente startups ou empresas em crescimento exponencial. Atuou em Employer Branding na Stone Pagamentos, tempo em que se especializou no tema através de cursos na ESPM e Lemonade School. Recentemente, concluiu uma formação em Product Management pela PM3 e hoje toca a área de Employer Branding da Collact, plataforma de CRM e fidelização de clientes, detentora do app e diretório ‘Compre Local’ e investida da Stone Pagamentos. Além disso, Ana ama escrever, descobrir diferentes culturas, viajar, conhecer novos lugares, bares e restaurantes, cozinhar, fazer exercícios, yoga e não dispensa um bom café ou uma taça de vinho.