Basicamente, entendemos como ‘cultura empreendedora’  a capacidade de as pessoas de uma empresa para fazer acontecer mesmo em condições de incerteza. Dado o atual cenário enfrentado pelas organizações e profissionais, alguém duvida que este é um fator-chave para determinar quem evolui e quem se estagna no mercado?

Empresas com culturas empreendedoras conseguem a façanha de fazer com que todo mundo esteja remando na mesma direção e no mesmo ritmo, evitando que o barco afunde e, mais do que isto, proporcionando consistência e aceleração do seu crescimento. Dentro disto, é importante que o time de Recursos Humanos dê apoio à liderança e também a todos os colaboradores, construindo o ambiente e clima de trabalho apropriados e gerenciando as expectativas das pessoas.

Mas, como construir essa cultura empreendedora? Por que empresas, sobretudo as maiores e mais tradicionais, têm tantas dificuldades nisto?

Os 5 principais desafios das equipes

Segundo Patrick Lencioni, as equipes enfrentam 5 principais desafios.

A base deles é a Ausência de confiança. A presença de um líder herói, que não demonstra vulnerabilidade, evita a geração de conflitos, a solicitação de ajuda e de feedbacks. Com isso, as pessoas ficam menos comprometidas com as suas entregas e, assim, sentem-se menos responsáveis pelos resultados. Isto é o extremo oposto a uma cabeça de dono/empreendedor. Por isto, fala-se tanto no tal do ‘Líder Servidor’, que demonstra sua fragilidade e se dispõe total e completamente para atender as dores e necessidades de seus times.

Employer Branding - Cultura empreendedora: o que é e como estimular?

De maneira geral, a falta de confiança acarreta o Medo de conflito, que, por sua vez, traz a Falta de Comprometimento e a Fuga da Responsabilidade, impactando no 5º desafio que é: Falta de atenção aos resultados. Afinal, um time que não é engajado não pode ser produtivo. Quer ter um time de alta performance? Então, comece pela confiança! Falei mais sobre a importância dela aqui neste texto.

Há ainda mais desvantagens dentro de um time sem confiança. São elas:

  • Armazenamento de mágoas entre os membros do time;
  • Menos colaboração e a prática de ‘se esconder cartas’;
  • Desconhecimento do potencial um dos outros;
  • Lentidão na resolução de problemas;
  • Ambiente de trabalho estressante;
  • Etc.

Logo, é necessário ter confiança para que se possa oferecer outra coisa fundamental na cultura empreendedora: autonomia (Se quiser saber como implementar uma Cultura de Liberdade, indiquei alguns caminhos neste artigo).

Uma cultura empreendedora de sucesso traz um equilíbrio perfeito entre Alinhamento e Autonomia. Caso estes pontos não se harmonizem, podemos vivenciar algum dos possíveis cenários abaixo:

  • Alto Alinhamento X Baixa Autonomia: neste contexto, temos uma realidade autoritária, em que o ‘Líder Heroi’ centraliza todas as decisões e microgerencia as tarefas. É altamente tóxica;
  • Alta Autonomia X Baixo Alinhamento: aqui, temos uma cultura caótica, quase uma anarquia em que cada pessoa vai para um lado e, no fim, nada alcança.
  • Baixo Alinhamento X Baixa Autonomia: este é um cenário completamente indiferente, que só repele as pessoas e não traz ganho nenhuma à organização.

Qual cenário devemos buscar, então?

Alto Alinhamento X Alta Autonomia: aqui sim, com  confiança nas pessoas, podemos alcançar uma harmonização entre Desafios e Habilidades, que permita às pessoas alcançarem seus Estados de Flow. Neste cenário, os líderes são como maestros de uma orquestra, que definem bem as motivações/os porquês os times e pessoas devem fazer algo, mas nunca o como. A confiança faz com que eles deleguem a cada pessoa a decisão sobre como entregar determinada coisa, como chegar a determinado lugar/resultado, etc.

Fluxo - Employer Branding

Foco no terreno, não no mapa

“Se houver disparidade entre o mapa e o terreno, fique SEMPRE com o terreno” – frase atribuída ao exército canadense

Em uma cultura empreendedora, a liderança abre mão do mapa  e foca apenas no terreno. Ao invés de priorizar a Teoria/Planejamento, ela prefere focar na Prática/Execução. A grande premissa aqui é EXPERIMENTAR!

Nesse ambiente, as pessoas são fanáticas por testes. Elas entendem que o erro controlado é inteligente. O objetivo não é a perfeição, e sim o progresso, porque creem que o progresso acumulado levará a excelência. Mas, para alcançar este progresso, são necessárias algumas premissas como:

  • Foco no cliente e em seus problemas reais. Se não, podemos até entregar coisas, mas nunca estaremos realmente evoluindo em nossa missão e no mercado;
  • Adaptabilidade e abertura ao novo. Esta é a nova moeda de troca dos negócios. Tantas empresas encontram dificuldades nisto porque é algo que depende altamente da consciência das pessoas e do exemplo da liderança. Apesar da dificuldade, é algo que vale a pena e, comprovadamente, afeta a promoção e o progresso de profissionais e empresas, respectivamente.

Parece perfeito, não? Mas, claro, não é algo fácil de se fazer.

O problema, muitas das vezes, é que o líder não consegue ver o terreno. Mas ele tem um time que está lá o tempo todo! Então, basta que ele forme um bom time e o empodere (a partir da confiança, transparência e comunicação) para que possa ter abertura de colher todas as informações e visões de que precisa em suas tomadas de decisão.

No entanto, também é recomendável que o líder vá a campo de  tempos em tempos, para observar ele mesmo o que está acontecendo. Para isto, é importante adotar o seguinte ponto.

Mate o seu ego todos os dias

As grandes startups do Vale do Silício promoveram uma forte mudança de mentalidade, em que se valoriza altamente a experimentação e a escuta do cliente. Elas entenderam a importância de não se trabalhar para e, sim, COM o cliente para entender completamente o terreno em que atuam. Entendendo suas dores e atendendo seus problemas reais, elas não se apaixonam por ideias, mas, sim, por entregar valor.

A partir daí surgiu o Manifesto Ágil, oposto ao antigo modelo vigente de gerenciamento de projetos, o Waterfall (ou Cascata). Tendo definidos os requisitos mínimos para a construção mínima de um produto (chamado de MVP – Minimum Viable Product) que pode ser, então, lançado e validado pelo cliente, os times de desenvolvimento conseguem envolver-se continuamente em processos de co-criação e iteração, focados no terreno e na experimentação. Desta forma, eles se mantêm, também, centrados no consumidor/usuário (Customer Centric).

Uma cultura empreendedora prega que os funcionários ajam assim em seu dia a dia de trabalho, colaborando entre si para construírem algo de valor e desejável, amável a seus clientes (não só produtos, mas qualquer coisa como pesquisas, programas, um atendimento, etc.). Isto se aplica também ao time de Recursos Humanos, que tem os colaboradores como seus clientes internos, além dos (potenciais) candidatos e demais públicos de interesse. Trouxe algumas ideias sobre como construir um RH Ágil neste texto.

Mas, para alcançar isso, é crucial garantir os seguintes dois pontos.

Coragem e velocidade na tomada de decisão

Uma cultura empreendedora é aquela em que seus membros têm liberdade e segurança para tomar decisões assertivas em tempo ágil. Mas, como estimular isto internamente?

Aqui vão algumas dicas finais:

  1. Não pregue uma ideia de que existe certo e errado. Se não, inibirá suas pessoas de se arriscarem e inovarem. Aceite que há infinitas possibilidades e incentive a experimentação;
  2. Escute quem está ao seu redor. Há muita sabedoria entre as pessoas que trabalham com você e seus clientes. Por isso, estimule a escuta do time, líderes, stakeholders, etc.;
  3. Você não precisa agradar a todos. A opinião das pessoas (exceto clientes) não deve definir as ações das pessoas. A unanimidade é sempre perigosa. Por isso, priorize a valorize a diversidade e complementariedade, por mais que isso promova o conflito. Ele trará o progresso que falamos mais acima;
  4. Não escolha o caminho mais fácil. Toda decisão tem suas consequências primárias e secundárias. Faça com que as pessoas não tenham medo delas. Oriente-as a aceitar isso, ponderar os impactos e ter sempre clareza de quais são as consequências imediatas e não imediatas para cada decisão que forem tomar.
  5. Decisões Reversíveis X Decisões Irreversíveis. Não deixe que as pessoas travem diante de decisões. Ao invés disto, ajude-as a fazer esta análise de reversibilidade. Se a decisão for reversível, elas podem parar, recuar e alterar. Assim, encoraje-as a testar, sem problemas! Agora, se a decisão for irreversível, estimule-as a colher o máximo de informações e dados antes de agir (testes!), ou, como outra opção, estimule-as a tornar a decisão reversível, se possível.
  6. EsforçoXResultado. Também estimule as pessoas a analisarem quanto de esforço e resultado cada ação demanda e gera, respectivamente. Isso as ajudará a ter autonomia em suas decisões sobre o que priorizar e fazer.

Parece muita coisa para absorver? Calma! Não precisamos atuar em todas as frentes e fazer todas as mudanças de uma só vez. Isto leva tempo. Construir uma cultura empreendedora não deixa de significar a construção de uma nova mentalidade, o que é bem complexo.

Mas, se posso te indicar algumas coisas para manter sempre em mente e te ajudar neste processo, eu diria para estimular suas pessoas a: colocar o cliente no centro de tudo, testar muito, empregar o esforço nas coisas que trarão 80% de resultado (na percepção do cliente), planejar e ter disciplina e consistência na execução. Planejamento sem execução é só um sonho; e execução sem planejamento é o caos. Encontre o equilíbrio perfeito entre eles, misture com confiança, alinhamento e autonomia e tenha uma cultura empreendedora como resultado.

Até o próximo texto!

Ana Carolina Lafuente
Por Ana Carolina Lafuente

Carioca de nascença, paulista de coração, meio brasileira e meio espanhola. Ana Carolina é formada em Publicidade e Propaganda pela ESPM Rio. Apaixonada por comportamento humano, começou a se aproximar da área de Pessoas na empresa júnior da faculdade e não largou mais dela desde então. Descobriu seu amor pelo empreendedorismo e seguiu sua carreira ajudando principalmente startups ou empresas em crescimento exponencial. Atuou em Employer Branding na Stone Pagamentos, tempo em que se especializou no tema através de cursos na ESPM e Lemonade School. Recentemente, concluiu uma formação em Product Management pela PM3 e hoje toca a área de Employer Branding da Collact, plataforma de CRM e fidelização de clientes, detentora do app e diretório ‘Compre Local’ e investida da Stone Pagamentos. Além disso, Ana ama escrever, descobrir diferentes culturas, viajar, conhecer novos lugares, bares e restaurantes, cozinhar, fazer exercícios, yoga e não dispensa um bom café ou uma taça de vinho.