Dando sequência ao texto passado, que tal seguirmos descobrindo algumas coisas que deveríamos, intencionalmente, desejar e buscar para, de fato, alcançarmos nossa felicidade e bem-estar?

Dentro do conjunto de estratégias ‘Melhor Querer #2 – querendo melhores coisas que não desejamos ainda’, há mais itens que devem estar em nosso foco como:

Melhor Querer #2 – querendo melhores coisas que não desejamos ainda

C. Afluência de Tempo

Afluência não é sobre dinheiro e ser rico, mas, neste caso, tem a ver com termos tempo para fazermos o que gostamos e, às vezes, simplesmente não fazermos nada também. Basicamente, é não nos sentirmos amarrados pelo tempo, como geralmente acontece em nossas vidas cotidianas.

Se o tempo impacta totalmente em nossa felicidade, por que não investimos nele?

Whillans et al. (2016)  fez  um  estudo  interessante  sobre  isso,  no  qual procurou avaliar a relação com a felicidade que dois tipos de priorização podem ter: Priorização do tempo sobre dinheiro X Priorização do dinheiro sobre tempo. De forma semelhante, Hershfield et al. (2016) analisou a dualidade Tempo X Dinheiro. Ambos os tipos de pessoas têm razões para fazer estas priorizações, mas… eles descobriram que, apesar de a maior parte das pessoas valorizarem dinheiro (69%) sobre o tempo (31%), estes últimos eram mais felizes que os primeiros.

Isso nos leva a perguntar: Por que ter tempo extra pode nos fazer mais felizes? Uma possível justificativa foi trazida por Moligner (2010). Ele observou que aqueles que priorizavam o tempo investiam mais também  em socialização. Assim, tinham mais probabilidade de fazer conexões sociais e atos de gentileza que, como vimos no texto passado, influenciam diretamente em nossa felicidade. Dessa forma, podemos concluir que pensar no tempo nos faz mais felizes e mais sociáveis.

Assim, vamos ao próximo fator.

D. Controle da Mente

Ele significa não nos perdermos ao redor de um monte de coisas. No mundo moderno, temos mais dificuldade para vincular nossa mente em apenas uma única tarefa. Ela geralmente fica vagando por aí, não é?

Por isso, devemos buscar algo chamado de ‘mind-wandering’, que significa: uma mudança entre pensar longe de uma tarefa em curso e/ou de eventos no ambiente externo para pensamentos e sentimentos auto-gerados.

Segundo Killingsworth & Gilbert (2010), nossa mente vagueia por volta de 46.9% do tempo. Para onde ela vai? Para diversos lugares: ela rumina sobre algo do passado, pensa no que fará para o jantar, pergunta-se o que aquela pessoa pensou dela na última vez em que se viram, etc. Mas, será que isto é realmente ruim? Por que nossa mente perambula tanto?

Isso tem a ver como nosso cérebro funciona e usa sua energia. Diferentes partes do nosso cérebro são ativadas quando fazemos diferentes tipos de tarefas. Além disso, há partes específicas do cérebro que são ativadas toda vez em que não estamos focando em algo. Aqui entra o conceito de ‘Rede Padrão’, uma rede de regiões cerebrais interativas conhecidas por ativar “automaticamente” quando uma pessoa não está envolvida em uma tarefa.

Mas não quer dizer que nosso cérebro simplesmente se escurece. Todo um conjunto de regiões energéticas se ligam e começam a funcionar neste momento. São as chamadas ‘task unresponsive regions’. Esta rede padrão (em inglês, ‘Default Mode Network’ (DMN), tem algumas características específicas como:

  • é realmente rápida (vem até nós em até uma fração de segundo depois de uma tarefa);
  • pensa fora do ‘aqui e agora’ (passado, presente ou futuro). Ela cria nossa própria experiência de realidade;
  • é ativada quando alguém lhe pede para pensar no passado, futuro ou nas mentes de outras pessoas.

‘Mind-wandering’ é uma conquista cognitiva! Somos a única espécie da natureza com esta habilidade. E há uma série de coisas que podemos fazer com ela. Apesar disso, ela não é sempre positiva. Killingsworth & Gilbert ( 2010) procuraram avaliar se as pessoas estavam concentradas no que estavam fazendo e se isso tinha relação com quão felizes se sentiam. Quais foram os resultados?

  • pessoas vagueiam com suas mentes 46.9% das horas acordadas;
  • pessoas vagueiam com suas mentes 30% do tempo na maioria das atividades que realizam (exceto no sexo);
  • a mobilidade e distração da mente têm um impacto negativo na felicidade.

Basicamente, quanto mais a mente perambula, menor é a felicidade. Gilbert viu que a distração da mente vem até nós sob um custo emocional e que, inclusive, “uma mente distraída é uma mente infeliz.” Então, como podemos parar com essa divagação? Há uma série de técnicas relacionadas à meditação que nos ajudam com isso.

Meditação

Esta é uma prática de tirar sua atenção de pensamentos distraídos em direção a um único ponto de referência (ex: respiração, sensações do corpo, pensamentos específicos, etc.). Mas, ela demanda esforço intencional.

Brewer et al. (2011) avaliaram se a meditação pode mudar nossa rede

padrão (DMN). O resultado mostrou que as pessoas que meditam regularmente usam bem menos esta rede do que as demais, e não só durante a meditação em si, mas também durante outras atividades. Isso porque ativam outras partes do cérebro que acabam calando esta rede. Portanto, concluíram que a meditação, como prática, pode sim frear a divagação da mente! Durante a meditação e durante toda a vida diária também.

Outros pesquisadores tentaram ir além no estudo sobre a meditação. Fredrickson et al. (2008) observaram que a prática de meditação pode potencializar as emoções positivas; assim, ela pode nos fazer mais felizes, calando  a  DMN  e  nos  trazendo  mais  uma  série  de  outros  benefícios. Hölzel et al. (2011), em outro experimento, viram o impacto da meditação no fortalecimento de algumas partes do cérebro e no aumento do seu tamanho.

Mrazek et al. (2013) provaram a correlação entre a meditação e performance, acadêmica ou profissional. Viram que a atenção plena (ou mindfullness)   impacta mais até que uma boa alimentação. Por fim, Hutcherson et al. (2008) testaram a correlação entre a meditação e outras que coisas que perseguimos em prol da felicidade. Descobriram que há tipos de meditação que aumentam nossa conexão social, inclusive com estranhos.

Sendo assim, a grande dica deste artigo é: aproveite sua afluência de tempo para por algum esforço em manter práticas de meditação que vão, por sua vez, realçar seu controle da mente e, de quebra, te fazer mais feliz!

Até o próximo texto com mais dicas de coisas que devemos querer para alcançar, de fato, nossa tão desejada felicidade.

A Ciência do Bem-Estar - Parte 6

Busque atividades que te façam aprimorar suas habilidades, mas com o nível apropriado de desafio.

“Os melhores momentos em nossas vidas não são os passivos, receptivos e relaxantes. Os melhores momentos geralmente ocorrem se o corpo ou a mente de alguém está esticada aos seus limites em um esforço voluntário para realizar algo difícil e gratificante.” – Mihaly Csikszentmihal yi

Outro pesquisador viu que um bom sentimento no trabalho estava atrelado a um alto desafio e a situações que exigiam altamente o uso das habilidades; justamente o estado de Flow. Isso porque ele promove o senso de eficácia e de auto-confiança.

No entanto, curiosamente, o que nós buscamos fazer quanto temos tempo livre? Procuramos atividades que nos desafiem ou aquelas que não nos façam pensar muito? Mais uma vez, prevemos erroneamente que estas atividades nos trarão prazer quando, na verdade, nos deixam entediados. Portanto, na próxima vez em que tiver horas livres, desconstrua suas crenças sobre trabalho X lazer e tente buscar atividades desafiadoras, que estimulem o melhor das suas habilidades!

Boas notas/Boa performance

Assim como um salário mais alto, ter boas notas ou ter boa performance não trazem a felicidade que acreditamos e prevemos (o velho problema do mispredict que falamos em textos anteriores). Isto porque estão relacionadas ao conflito entre Motivação Extrínseca X Motivação Intrínseca.

Motivação Extrínseca é se engajar em um comportamento para ganhar recompensas externas ou para evitar punições. Enquanto a Motivação Intrínseca é se engajar em um comportamento porque você desfruta a atividade por si só, ninguém precisa te pagar a mais ou te dar mais recompensas por isso.

Deci (1971) fez um teste e comprovou que a motivação externa (ex: dinheiro) pode, inclusive, matar e minar a motivação interna. Isso porque a pressão por boas notas e um bom trabalho pode nos fazer esquecer o porquê estamos lá e o porquê desfrutamos daquelas atividades. De forma geral, a motivação externa pode minar o que chamamos de ‘Mentalidade  de Crescimento’.

Carol Dweck, em seu reconhecido livro ‘Mindset: A nova psicologia do sucesso’, apresentou a dualidade entre os dois tipos de mentalidade que podemos adotar em nossa vida. São eles:

  • Mentalidade de Crescimento: a crença de que a inteligência pode ser treinada e de que a maioria das habilidades pode ser desenvolvida através de dedicação e trabalho duro;
  • Mentalidade Fixa: a crença de que qualidades básicas como a inteligência e os talentos são traços fixos; ou você os tem ou não. Ela defende que a vida vai te mostrando as atividades em que você é bom/boa ou não e que você não pode fazer muita coisa para mudar isso.

Ambas a mentalidades impactam bastante na forma como aprendemos, performamos e, sobretudo, lidamos com o fracasso. Veja algumas principais diferenças abaixo:

Mentalidade de Crescimento:

  • foco em aprendizado, não resultado;
  • boa performance requer trabalho duro;
  • trabalho duro é bom, ele me torna melhor;
  • esforço = bom sinal;
  • gosta e tira o melhor das deficiências;
  • capitaliza em cima dos erros, tira o melhor deles.

Mentalidade Fixa:

  • foco em notas e performance (que provam a inteligência);
  • boa performance vem naturalmente (e a má também), não importa o que você faça;
  • “se eu tenho que trabalhar duro, então eu não sou inteligente”;
  • esforço = mal sinal, vergonhoso;
  • esconde as deficiências;
  • esconde os erros.

Estimulados por esta teoria, Grant & Dweck, (2003) foram analisar o comportamento de estudo das pessoas baseado em suas mentalidades. Eles comprovaram que, enquanto aqueles com mentalidade fixa se preocupavam com notas e sofriam com perda de confiança, aqueles com mentalidade de crescimento se preocupavam mais em aprender o material e, assim, trabalhavam mais duro. Estes últimos acabavam tirando as melhores notas no final do período.

Basicamente, Grant e Dweck observaram diferenças claras na maneira como os alunos começavam e finalizavam o semestre. Um estudo relacionado foi feito por Mangels et al. (2006), em que viu que os alunos com mentalidade fixa prestavam mais atenção ao resultado de respostas certas e erradas, ou seja, em sua nota final; enquanto os alunos de mentalidade de crescimento prestavam mais atenção na resposta que era a correta, para que pudessem aprender. Isso também os levava a tirar as melhores notas em testes aplicados depois.

Mas, então, a mentalidade fixa nunca é boa? O único caso em que poderíamos dizer que a mentalidade fixa funciona é quando você tira uma boa nota ou performa bem sem fazer esforço para isso. No entanto, você também não aprende e cresce ao longo do processo, você se mantém estável.

Mas, se você tem que se esforçar para conquistar e realizar algo, quando você tem que se aperfeiçoar, é a mentalidade de crescimento que irá te ajudar mais. Isto se deve ao fato de a mentalidade de crescimento não afetar a motivação intrínseca como a mentalidade fixa; assim, ela permite o alcance de notas e performance melhores ao longo do tempo. Além disso, a mentalidade fixa gera mais questionamentos sobre se somos bons ou não e provoca maior perda de autoconfiança quando as coisas não saem bem como esperávamos.

Logo, você pode estar se perguntando: ‘Qual o grande problema nisso tudo? Por que não adotamos simplesmente uma mentalidade de crescimento e, assim, vamos nos desenvolvendo com o tempo?’ Não é tão fácil assim. Todos nós crescemos com a mentalidade fixa (por exemplo, quando crianças, somos ensinados que existem aqueles com aptidão para a matemática, artes, etc. e aquele que não). Mas, a boa notícia é que podemos APRENDER a ter uma mentalidade de crescimento!

Blackwell et al. (2007) comprovou em seu experimento que podemos treinar as pessoas (e nós mesmos) para termos uma mentalidade de crescimento ao invés de uma mentalidade fixa. Dessa forma, aumentamos nossa motivação intrínseca e nossa habilidade de aprendizagem. Por isso, você pode começar a ler mais sobre isso, pensar mais sobre isso e se forçar todo dia a aplicar esta mentalidade até que, de fato, comece a acreditar nela e se aperfeiçoe.

O que tiramos de todos esses pontos? Bom, é claro que queremos ter um trabalho que nos faça felizes e uma boa performance. Mas, não devemos perseguir coisas como salário ou notas altas. Ao invés disso, para sermos realmente felizes, devemos procurar trabalhos que nos permitam usar nossas ‘Forças de Assinatura’ e atingir o estado de ‘Flow’, adotando sempre uma ‘Mentalidade de Crescimento’ em nossas atividades. Devemos focar não apenas nos resultados que obtemos, mas principalmente no processo de aprender e nos aperfeiçoar em algo. A regra aqui é nunca se manter estável nas suas habilidades, mas sempre em evolução.

No próximo texto, falarei sobre as demais coisas que deveríamos buscar para sermos felizes. Até lá!

Ana Carolina Lafuente
Por Ana Carolina Lafuente

Carioca de nascença, paulista de coração, meio brasileira e meio espanhola. Ana Carolina é formada em Publicidade e Propaganda pela ESPM Rio. Apaixonada por comportamento humano, começou a se aproximar da área de Pessoas na empresa júnior da faculdade e não largou mais dela desde então. Descobriu seu amor pelo empreendedorismo e seguiu sua carreira ajudando principalmente startups ou empresas em crescimento exponencial. Atuou em Employer Branding na Stone Pagamentos, tempo em que se especializou no tema através de cursos na ESPM e Lemonade School. Recentemente, concluiu uma formação em Product Management pela PM3 e hoje toca a área de Employer Branding da Collact, plataforma de CRM e fidelização de clientes, detentora do app e diretório ‘Compre Local’ e investida da Stone Pagamentos. Além disso, Ana ama escrever, descobrir diferentes culturas, viajar, conhecer novos lugares, bares e restaurantes, cozinhar, fazer exercícios, yoga e não dispensa um bom café ou uma taça de vinho.