Para seguirmos nossa jornada em direção ao nosso bem-estar e felicidade, vamos falar hoje dos primeiros itens dentro do segundo conjunto de coisas que deveríamos desejar, intencionalmente, em nossas vidas.

Melhor Querer #2 – querendo melhores coisas que não desejamos ainda

Há uma série de coisas que impactam diretamente nossa felicidade, mas que acabam passando despercebidas por nós. São elas:

Gentileza

Alguns simples atos de gentileza em nossos dias podem impactar mais o nosso bem-estar que um ‘bom trabalho’ ou ‘boas notas’. Otake et al. (2006) comprovou este fato em seu estudo. Ao testar a motivação para gentileza, memórias e comportamentos, viu que pessoas mais felizes têm também mais motivação e, assim, assumem mais comportamentos e conseguem reconhecer mais atos de gentileza em seu dia a dia.

Mas, você sabia que apenas pensar em atos gentis também já aumenta a nossa felicidade? As pessoas que mantém o monitoramento de seus atos gentis podem, sim, apresentar maiores níveis de felicidade, segundo experimentos.

Lyubomirsky (2005), em outra pesquisa, trouxe mais uma visão interessante. Ao pedir para que os participantes realizassem cinco (5) atos de gentileza na semana seguinte, verificou que as pessoas que realizaram todos eles em um único dia tiveram um aumento exponencial de felicidade no dia. Em seguida, vieram aqueles que realizaram um ato por dia e que experimentaram também um aumento considerável de felicidade a cada vez.

Portanto, ajudar os outros não faz bem apenas a eles, mas, principalmente, a nós também. Dentro desta perspectiva, você pode pensar: então, o salário pode nos trazer felicidade, se usado para ajudar a outras pessoas como um ato de gentileza? Aparentemente sim! Outros acadêmicos procuraram comprovar este fato.

Liz Dunn, autora do livro Happy Money: The Science of Happier S pending, tentou analisar se investir dinheiro em outras pessoas pode impactar nossa felicidade. O que ela descobriu em seus estudos? Apesar de prevermos que seremos mais felizes investindo dinheiro em nós mesmos do que em outros, as pessoas que investiram dinheiro para ajudar a outros tiveram níveis de felicidade bem maiores do que aqueles que investiram em si próprios. E não importa quanto dinheiro é gasto, ou seja, investir R$5,00 ou R$20,00 traz o mesmo ganho de felicidade!

Você também pode ser perguntar: será que esses resultados podem ter variações razoáveis entre diferentes culturas? Aknin et al. (2013) foram atrás deste ponto, verificando também se a quantidade de dinheiro investido pode impactar mais neste caso. O resultado do estudo foi que não há diferença no aumento de felicidade entre culturas ou níveis de renda.

Atos de gentileza sempre trazem um bom ganho de felicidade a quem os pratica e a quem os recebe.

Portanto, olhe para o seu dia: há momentos frustrantes, em que você poderia transformá-los em momentos mais felizes? Para isso, você tem três opções:

  • preste atenção nos atos de gentileza que você já faz;
  • faça atos extras de gentileza;
  • gaste/invista dinheiro para ajudar a outras pessoas.

Outro ponto interessante é que os atos de gentileza também aumentam nossa sensação de conexão social. É justamente sobre ela que falaremos a seguir:

Conexão Social

Estar ao redor de outras pessoas importa mais do que pensamos. Como a gentileza, conectar-se aos outros impacta mais nossa felicidade que um ‘bom trabalho’ e salário. A conexão social é o oposto à solidão, que, inclusive, impacta 7X mais nossa felicidade que a renda, segundo estudos.

Mas, o que pode ser entendido como ‘conexão social’? Ela pode ser desde um contato visual e um sorriso até um relacionamento amoroso de longo-prazo. Todos eles são positivos às pessoas e, de forma contrária, sua falta é prejudicial.

Myers (2000) realizou um experimento interessante sobre o tema, no qual descobriu que pessoas que têm laços sociais mais fortes são:

  • menos vulneráveis à morte prematura;
  • mais propensas a sobreviver a doenças fatais;
  • menos suscetíveis a cair frente a eventos estressantes;
  • melhores em uma série de coisas.

Tudo isso traz consequências importantes para a felicidade. Diener & Seligman (2002) verificou que pessoas com amigos mais próximos, laços familiares mais fortes e maior tempo despendido com amigos, parceiros e família são consideravelmente mais felizes. Aliás, a quantidade de tempo gasto com outros pode prever o quanto as pessoas são felizes ou não.

Então, será que podemos interferir em nossas vidas, aumentar nossas conexões sociais e, assim, aumentar nossa felicidade? Este foi o foco de uma pesquisa feita por Nick Epley, autor do livro ‘Mindwise: Why We Misunderstand What Others Think, Believe, Feel, and Want‘, que provocou interações sociais nos meios de transporte público.

Mais uma vez, apesar de prevermos que teremos maior positividade nos mantendo quietos nestes momentos, Epley comprovou que a geração de conexão social nestes períodos trazia mais felicidade. Muitas vezes, buscamos solidão e isolação social em alguns lugares em que não nos sentimos confortáveis, mas acabamos subestimando os benefícios da conexão social.

Além disso, por vezes, pensamos que a interação social causaria estranhamento ou algo negativo no outro, que pode nos achar irritante. Isso faz total sentido se pensarmos que o fato de não falarmos com estranhos é algo cultural e histórico, além de nós. No entanto, isto também foi derrubado pelo experimento.

Aprofundando o estudo, Epley & Schroeder (2014) verificaram que a outra pessoa também ficava mais feliz com a conexão criada. Logo, quando falamos de interação social, até simples conexões com estranhos ajudam! Epley fez ainda mais um estudo, no qual descobriu que quando somos mais amigáveis às pessoas elas também são mais amigáveis conosco. Como resultado, o humor de ambas as partes melhora.

Além disso, quando estamos com outras pessoas, processamos informações e coisas de forma diferente. Foi isto que procurou  comprovar

Boothby et al. (2014). Eles verificaram que estar ao redor de outra pessoa pode afetar nossas experiências subjetivas positivamente. Assim, uma simples viagem de metrô ao trabalho ganha outro significado, e muito melhor.

Sendo assim, como podemos usar isso intencionalmente ao nosso favor?

  • tente ficar mais longe do seu celular;
  • esteja disponível a falar com as pessoas ao seu redor;
  • expresse gratidão às pessoas.

Mas, lembre-se: para que afetem a sua felicidade, essas ações precisam tornar-se um hábito, serem consistentes. Portanto, tente realçar isso na sua vida diária, em sua rotina, trabalho, etc. E use este conhecimento agora para reconhecer os benefícios e, intencionalmente, promover conexões sociais e, consequentemente, melhorar seu humor e bem-estar.

No próximo texto, falaremos sobre mais alguns tópicos que devemos desejar cada vez mais para nós, em direção a nossa felicidade. Até lá!

A Ciência do Bem-Estar - Parte 6

Busque atividades que te façam aprimorar suas habilidades, mas com o nível apropriado de desafio.

“Os melhores momentos em nossas vidas não são os passivos, receptivos e relaxantes. Os melhores momentos geralmente ocorrem se o corpo ou a mente de alguém está esticada aos seus limites em um esforço voluntário para realizar algo difícil e gratificante.” – Mihaly Csikszentmihal yi

Outro pesquisador viu que um bom sentimento no trabalho estava atrelado a um alto desafio e a situações que exigiam altamente o uso das habilidades; justamente o estado de Flow. Isso porque ele promove o senso de eficácia e de auto-confiança.

No entanto, curiosamente, o que nós buscamos fazer quanto temos tempo livre? Procuramos atividades que nos desafiem ou aquelas que não nos façam pensar muito? Mais uma vez, prevemos erroneamente que estas atividades nos trarão prazer quando, na verdade, nos deixam entediados. Portanto, na próxima vez em que tiver horas livres, desconstrua suas crenças sobre trabalho X lazer e tente buscar atividades desafiadoras, que estimulem o melhor das suas habilidades!

Boas notas/Boa performance

Assim como um salário mais alto, ter boas notas ou ter boa performance não trazem a felicidade que acreditamos e prevemos (o velho problema do mispredict que falamos em textos anteriores). Isto porque estão relacionadas ao conflito entre Motivação Extrínseca X Motivação Intrínseca.

Motivação Extrínseca é se engajar em um comportamento para ganhar recompensas externas ou para evitar punições. Enquanto a Motivação Intrínseca é se engajar em um comportamento porque você desfruta a atividade por si só, ninguém precisa te pagar a mais ou te dar mais recompensas por isso.

Deci (1971) fez um teste e comprovou que a motivação externa (ex: dinheiro) pode, inclusive, matar e minar a motivação interna. Isso porque a pressão por boas notas e um bom trabalho pode nos fazer esquecer o porquê estamos lá e o porquê desfrutamos daquelas atividades. De forma geral, a motivação externa pode minar o que chamamos de ‘Mentalidade  de Crescimento’.

Carol Dweck, em seu reconhecido livro ‘Mindset: A nova psicologia do sucesso’, apresentou a dualidade entre os dois tipos de mentalidade que podemos adotar em nossa vida. São eles:

  • Mentalidade de Crescimento: a crença de que a inteligência pode ser treinada e de que a maioria das habilidades pode ser desenvolvida através de dedicação e trabalho duro;
  • Mentalidade Fixa: a crença de que qualidades básicas como a inteligência e os talentos são traços fixos; ou você os tem ou não. Ela defende que a vida vai te mostrando as atividades em que você é bom/boa ou não e que você não pode fazer muita coisa para mudar isso.

Ambas a mentalidades impactam bastante na forma como aprendemos, performamos e, sobretudo, lidamos com o fracasso. Veja algumas principais diferenças abaixo:

Mentalidade de Crescimento:

  • foco em aprendizado, não resultado;
  • boa performance requer trabalho duro;
  • trabalho duro é bom, ele me torna melhor;
  • esforço = bom sinal;
  • gosta e tira o melhor das deficiências;
  • capitaliza em cima dos erros, tira o melhor deles.

Mentalidade Fixa:

  • foco em notas e performance (que provam a inteligência);
  • boa performance vem naturalmente (e a má também), não importa o que você faça;
  • “se eu tenho que trabalhar duro, então eu não sou inteligente”;
  • esforço = mal sinal, vergonhoso;
  • esconde as deficiências;
  • esconde os erros.

Estimulados por esta teoria, Grant & Dweck, (2003) foram analisar o comportamento de estudo das pessoas baseado em suas mentalidades. Eles comprovaram que, enquanto aqueles com mentalidade fixa se preocupavam com notas e sofriam com perda de confiança, aqueles com mentalidade de crescimento se preocupavam mais em aprender o material e, assim, trabalhavam mais duro. Estes últimos acabavam tirando as melhores notas no final do período.

Basicamente, Grant e Dweck observaram diferenças claras na maneira como os alunos começavam e finalizavam o semestre. Um estudo relacionado foi feito por Mangels et al. (2006), em que viu que os alunos com mentalidade fixa prestavam mais atenção ao resultado de respostas certas e erradas, ou seja, em sua nota final; enquanto os alunos de mentalidade de crescimento prestavam mais atenção na resposta que era a correta, para que pudessem aprender. Isso também os levava a tirar as melhores notas em testes aplicados depois.

Mas, então, a mentalidade fixa nunca é boa? O único caso em que poderíamos dizer que a mentalidade fixa funciona é quando você tira uma boa nota ou performa bem sem fazer esforço para isso. No entanto, você também não aprende e cresce ao longo do processo, você se mantém estável.

Mas, se você tem que se esforçar para conquistar e realizar algo, quando você tem que se aperfeiçoar, é a mentalidade de crescimento que irá te ajudar mais. Isto se deve ao fato de a mentalidade de crescimento não afetar a motivação intrínseca como a mentalidade fixa; assim, ela permite o alcance de notas e performance melhores ao longo do tempo. Além disso, a mentalidade fixa gera mais questionamentos sobre se somos bons ou não e provoca maior perda de autoconfiança quando as coisas não saem bem como esperávamos.

Logo, você pode estar se perguntando: ‘Qual o grande problema nisso tudo? Por que não adotamos simplesmente uma mentalidade de crescimento e, assim, vamos nos desenvolvendo com o tempo?’ Não é tão fácil assim. Todos nós crescemos com a mentalidade fixa (por exemplo, quando crianças, somos ensinados que existem aqueles com aptidão para a matemática, artes, etc. e aquele que não). Mas, a boa notícia é que podemos APRENDER a ter uma mentalidade de crescimento!

Blackwell et al. (2007) comprovou em seu experimento que podemos treinar as pessoas (e nós mesmos) para termos uma mentalidade de crescimento ao invés de uma mentalidade fixa. Dessa forma, aumentamos nossa motivação intrínseca e nossa habilidade de aprendizagem. Por isso, você pode começar a ler mais sobre isso, pensar mais sobre isso e se forçar todo dia a aplicar esta mentalidade até que, de fato, comece a acreditar nela e se aperfeiçoe.

O que tiramos de todos esses pontos? Bom, é claro que queremos ter um trabalho que nos faça felizes e uma boa performance. Mas, não devemos perseguir coisas como salário ou notas altas. Ao invés disso, para sermos realmente felizes, devemos procurar trabalhos que nos permitam usar nossas ‘Forças de Assinatura’ e atingir o estado de ‘Flow’, adotando sempre uma ‘Mentalidade de Crescimento’ em nossas atividades. Devemos focar não apenas nos resultados que obtemos, mas principalmente no processo de aprender e nos aperfeiçoar em algo. A regra aqui é nunca se manter estável nas suas habilidades, mas sempre em evolução.

No próximo texto, falarei sobre as demais coisas que deveríamos buscar para sermos felizes. Até lá!

Ana Carolina Lafuente
Por Ana Carolina Lafuente

Carioca de nascença, paulista de coração, meio brasileira e meio espanhola. Ana Carolina é formada em Publicidade e Propaganda pela ESPM Rio. Apaixonada por comportamento humano, começou a se aproximar da área de Pessoas na empresa júnior da faculdade e não largou mais dela desde então. Descobriu seu amor pelo empreendedorismo e seguiu sua carreira ajudando principalmente startups ou empresas em crescimento exponencial. Atuou em Employer Branding na Stone Pagamentos, tempo em que se especializou no tema através de cursos na ESPM e Lemonade School. Recentemente, concluiu uma formação em Product Management pela PM3 e hoje toca a área de Employer Branding da Collact, plataforma de CRM e fidelização de clientes, detentora do app e diretório ‘Compre Local’ e investida da Stone Pagamentos. Além disso, Ana ama escrever, descobrir diferentes culturas, viajar, conhecer novos lugares, bares e restaurantes, cozinhar, fazer exercícios, yoga e não dispensa um bom café ou uma taça de vinho.