No texto passado, comecei a nossa jornada por entender como podemos superar nossos vieses psicológicos e, através de estratégias intencionais, desenvolver o hábito de desejarmos coisas que, de fato, têm o poder de nos fazer melhor e mais felizes.

Hoje, portanto, trago o segundo conjunto dessas estratégias.

Conjunto de Estratégias #2 – Reconfigurando nossos pontos de referência

Na parte II desta série, eu trouxe o conceito de ‘Ponto de Referência’ e vimos como nossas mentes não pensam em termos de absolutos, mas sim em termos de relativos (estes pontos de referência). Basicamente, eles são padrões contra os quais toda informação que recebemos depois é comparada.

Descobrimos também como estabelecer pontos de referência inadequados a nós pode afetar – e muito – nossa sensação de felicidade. Ter padrões não factíveis pode ser um grande vilão e sabotador em nossa vida. O problema é que, geralmente, não escolhemos com o que nos comparar, eles vem até nós livremente. Assim, os pontos de referência afetam nossa felicidade e julgamentos a todo o tempo, sem que percebamos.

Morewedge et al (2010) observou, por exemplo, que as pessoas aproveitavam menos uma guloseima se havia outras no local para comparação. Infelizmente, isso é o que acontece conosco toda hora. Mesmo fora de um experimento científico, somos constantemente bombardeados por pontos de referência que se apresentam a nós através da TV e das Mídias Sociais. Elas estabelecem nossos pontos de referência.

Com isso, vem a pergunta: Como reconfigurar nossos pontos de referência e usar outras melhores?

Há cinco formas para isso:

  • Re-experienciar concretamente;
  • Observar concretamente;
  • Evitar comparações sociais;
  • Interromper seu consumo;
  • Aumentar sua variedade.

Vamos ver melhor cada um deles abaixo:

Re-experienciar concretamente

Frequentemente, nós usamos um determinado ponto de referência até que venha outra coisa, nós a aproveitemos e, em sequência, a elevemos ao patamar de novo ponto de referência. É aí que mora o perigo. Como vimos em textos anteriores, nós nos acostumamos às coisas e acabamos as tomando como algo certo (paramos de ser gratos por elas).

Re-experienciar algo é uma maneira de superar isso. Você pode pensar em quais eram os seus pontos de referência anteriores e como era pior antes. Podemos até usar nossa imaginação para, concretamente, voltar ao passado e reconfigurar nosso ponto de referência.

Observar concretamente

A dica aqui é tentar observar as coisas como realmente elas são. Preste atenção ao aspecto racional do que você tem e suas alternativas e, assim, quebre suas fantasias/expectativas ilusórias.

Apesar disso, o pior tipo de ponto de referência são, justamente, outras pessoas. É sobre isso que o próximo ponto trata.

Evitar comparações sociais

Apesar de as mídias sociais serem interessantes para o ato de ‘Savoring’ que vimos no texto passado, geralmente elas causam o efeito inverso. Isto porque não costumamos nos manter presentes nos momentos e, além disso, elas nos fazem realizar comparações sociais, que têm efeito nocivo em nossa percepção de felicidade.

Para evitar a comparação social, podemos adotar algumas técnicas também:

  1. ‘The Stop Technique’: você pode dizer a sua mente, conscientemente, para parar de acreditar no que vê e parar a comparação social;
  2. Prática de gratidão: se você tiver o hábito de agradecer pelo que tem, você acaba desviando a sua atenção de focar no que os outros têm. Desta forma, evita a comparação social e a inveja;
  3. Esteja consciente sobre em que tipo de comparação social você se deixar entrar: nós não podemos apagar os anúncios e as informações que chegam até nós, mas podemos escolher com o que vamos nos comparar! Por exemplo, quanto ao seu corpo, mais vale comparar-se a pessoas comuns que você conhece do que a modelos e celebridades que defendem uma imagem difícil de conquistar. Por isso, tente apoiar as campanhas que usam pontos de referência mais verdadeiros e, mais importante ainda, faça uma curadoria de todas as informações que recebe.
  4. Sair da mídia social: esta é uma ação mais extrema, mas é também uma opção. Você pode deletar seus apps do celular antes de, propriamente, deletar suas contas. Experimente fazer um teste por alguns dias talvez.

Interromper seu consumo

Esta é uma das formas de também superar a chamada ‘Adaptação Hedônica’. Claro que todos nós queremos que as coisas boas continuem acontecendo, mas, se você se forçar a interromper o consumo de alguma coisa prazerosa e voltar depois, você pode estabelecer bons pontos de referência e (re)estimular sua felicidade quando retomar a atividade.

Nelson & Meyvis (2008) comprovou que dar uma pausa ao ato de assistir TV, e até mesmo ouvir sua música favorita, aumenta a experiência de prazer (apesar de prevermos que teríamos mais prazer sem a interrupção).

Assim, tente quebrar ao máximo seus momentos prazerosos em partes menores.

Aumentar sua variedade

Esta estratégia é bem simples. Pense que você passa uma semana inteira tomando sorvete. Provavelmente, no último dia, você está enjoado(a), não? Mas, imagine se você toma diferentes sabores, um a cada dia. Isto o(a) faria entediar-se menos, correto? A variedade pode aumentar o seu prazer.

Por isso, pense na sua vida diária e procure trazer mais variedade a sua rotina, trabalho e até conexões sociais. Desta forma, você não se acostumará tanto a elas. Cientistas viram que a variedade pode aumentar a felicidade e, além disso, fazer ela durar por mais tempo também. Junte esta estratégia à anterior e tente fazer blocos de prazer espaçados (mais do que alguns minutos ou horas) e diversos entre si.

Lembre que experiências são melhores que coisas justamente porque são mais dinâmicas. Mas você pode torná-las ainda mais dinâmicas!

Com isso, finalizamos os conjuntos de estratégias que podemos usar intencionalmente para desenvolver o hábito de desejar melhor coisas que nos trarão felicidade. Mas o que, de fato, deveríamos estar desejando, então?

Este é o foco do próximo texto. Até lá!

Ana Carolina Lafuente
Por Ana Carolina Lafuente

Carioca de nascença, paulista de coração, meio brasileira e meio espanhola. Ana Carolina é formada em Publicidade e Propaganda pela ESPM Rio. Apaixonada por comportamento humano, começou a se aproximar da área de Pessoas na empresa júnior da faculdade e não largou mais dela desde então. Descobriu seu amor pelo empreendedorismo e seguiu sua carreira ajudando principalmente startups ou empresas em crescimento exponencial. Atuou em Employer Branding na Stone Pagamentos, tempo em que se especializou no tema através de cursos na ESPM e Lemonade School. Recentemente, concluiu uma formação em Product Management pela PM3 e hoje toca a área de Employer Branding da Collact, plataforma de CRM e fidelização de clientes, detentora do app e diretório ‘Compre Local’ e investida da Stone Pagamentos. Além disso, Ana ama escrever, descobrir diferentes culturas, viajar, conhecer novos lugares, bares e restaurantes, cozinhar, fazer exercícios, yoga e não dispensa um bom café ou uma taça de vinho.