O que impacta e como podemos ser mais eficientes na construção e manutenção do nosso bem-estar e felicidade?

É isso que viemos debatendo nos textos anteriores e que seguiremos abordando nos próximos textos.

No primeiro texto, introduzimos o conceito de Psicologia Positiva, apresentamos os principais equívocos em nossas noções sobre felicidade e vimos algumas comprovações científicas de que, na verdade, o que buscamos ao longo de nossas vidas não necessariamente nos traz felicidade.

Na segunda parte, explicamos melhor porque acabamos desejando erroneamente coisas achando que nos farão felizes (miswanting) e entramos mais a fundo nas duas primeiras do que chamamos de ‘Características Irritantes da Mente’.

Já no terceiro artigo, abordamos as outras duas características, falamos da ‘Adaptação Perceptiva’, ‘Adaptação Hedônica’ e ‘Viés de Impacto’ e já começamos a descobrir algumas dicas de como superar estas questões.

No texto de hoje, vamos focar inteiramente em como “calar” esses nossos vieses psicológicos. Para isso, vou trazer algumas estratégias que podemos usar intencionalmente em um esforço para tornarmos as coisas melhores e fazermos com que desejar as coisas certas se torne um hábito natural com  o passar do tempo.

“Our intentional, effortful activities have a powerful effect on how happy we are (40%), over and above the effects of our set points (50%) and circunstancies (10%).”

Sonja Lyubomirsky

Para começar, podemos usar duas (2) estratégias que nos fazem reverter nossa direção. Mas vamos falar apenas da primeira delas hoje:

Conjunto de Estratégias #1 – Superando a Adaptação Hedônica

A primeira coisa que podemos fazer dentro deste conjunto é perceber que desejar coisas que podemos comprar não é um bom negócio, uma vez que são itens estáticos, imutáveis e que, ao estarem ao nosso redor, faz com que nos acostumemos a elas. Por isso, uma primeira dica é:

# 1.a Pare de investir em coisas; comece a investir em experiências

Dan Gilbert, um dos autores que estudou e escreveu sobre o tema, defende que coisas, ao invés de fazerem nos sentirmos melhor, na verdade, ficam ao redor de nós e nos desapontam. Por isso, deveríamos investir em coisas que não permanecem ao nosso redor, como as experiências (viagens, férias, galerias de arte, concertos, refeição, etc.). Nós não temos tempo de nos acostumarmos com elas porque simplesmente evaporam. As experiências têm o bom-senso de irem embora e nos deixar com nada além de uma maravilhosa memória.

Van Boven e Gilovich (2003) viram, em um experimento científico, que experiências são capazes de fazer com que as pessoas se sintam mais felizes e percebam que seu dinheiro é melhor gasto do que quando avaliam o consumo de bens materiais. Isso acontece mesmo com as pessoas que têm menor renda e bens.

Além disso, o próprio fato de pensar e planejar uma experiência tem o poder de aumentar nosso senso de felicidade (por antecipação), o que não acontece com produtos, que, pelo contrário, gera materialismo e senso de impaciência e ansiedade. Curioso é que também temos o hábito de prever erroneamente nossa reação (mispredict) e, frequentemente, acreditamos que seremos mais felizes consumindo bens materiais do que, de fato, somos.

Experiências são também positivas para nossa felicidade porque:

  • Comentar das experiências com outras pessoas pode melhorar o nosso humor: já com produtos, isso pode ser algo entendiante. Van B oven et al (2010) analisou o fato e descobriu que as pessoas percebem aquelas que investem em experiências como mais bem-humoradas, amigáveis e mente-aberta; enquanto percebem aquelas que investem em bens materiais como consumistas, auto-centradas, inseguras e julgadoras.
  • Experiências são menos acessíveis à comparação social: um estudo interessante aqui é o do Howell & Hill (2009). Relacionado ao ponto anterior, ele viu que experiências provocam mais felicidade nas outras pessoas quando as compartilhamos do que bens materiais, que são mais eficazes na geração de comparação social e inveja.

Outras estratégias neste conjunto estão atreladas ao fato de “enganarem” a tal da ‘Adaptação Hedônica’. Confira elas abaixo:

# 1.b Savoring

É o ato de pisar fora de uma experiência e ser capaz de revisá-la e aproveitá-la com a mente totalmente presente, sem pensar em nada mais. Assim, ele intensifica sua curva hedônica e faz ela durar por mais tempo.

Segundo Jose et al (2012), há algumas coisas que nos ajudam a potencializar o ato, como:

  • Compartilhar com outra pessoa e falar sobre quão bem se sentiu;
  • Pensar em como sortudo(a) é ou como orgulhoso(a) está;
  • Mostrar expressões físicas de energia, rir ou gargalhar;
  • Pensar apenas no momento presente, estar completamente absorvido(a).

Por outro lado, há ações que prejudicam o Savoring e aumentam a nossa ‘Adaptação Hedônica’, como:

  • Focar no futuro, quando a experiência já terá passado;
  • embrar-se de que ela terminará em breve ou de que nada dura para sempre;
  • Pensar que a experiência não é tão boa como acreditava que seria (ponto de referência);
  • Pensar em como a experiência nunca mais será tão boa ou que ela poderia ser melhor;
  • Dizer a si mesmo(a) que não merece uma coisa tão boa assim.

Kurtz e colegas (2008) avaliou que tirar fotos para as redes sociais pode ter ambos os tipos de impactos opostos. Se focarmos na imagem mais do que aproveitamos o momento presente, podemos prejudicar o ato de Savoring. Mas, se as usarmos para ver outras perspectivas da experiência e pensarmos em quão sortudos(as) somos, podemos potencializar esta estratégia.

Também podemos aproveitar momentos passados além dos presentes. Como humanos, temos esta capacidade e torná-la um hábito pode realmente impulsionar nossa felicidade. A Sonja Lyubomirsky e colegas (2006) viu que nós somos capazes de sustentar aumentos em nossas emoções positivas, provocados pelo Savoring, por até quatro (4) semanas depois!

Outras estratégias são:

# 1.c Visualização Negativa

Curiosamente, pensar nas coisas opostas que poderiam ter acontecido pode quebrar nossa ‘Adaptação Hedônica’ e aumentar nossa curva de prazer novamente. O segredo está em pensar: O que poderia não ter sido X O que foi. Koo et al (2008) comprovou isso no âmbito amoroso.

# 1.d Faça deste o seu último dia

Fingir isso para algumas ações específicas pode te ajudar a perceber o quão sortudo(a) é e reformular algumas situações. Kurtz (2008) comprovou isso em estudantes próximos à graduação. Pensar em perder algo é uma boa forma de estimular sua felicidade.

Mas, a técnica mais poderosa é a próxima!

# 1.e Gratidão

É a qualidade de ser agradecido(a) e uma tendência de mostrar apreciação pelo que se tem. Emmons et al. (2003) observou que as pessoas que têm o hábito de pensar em gratidão têm maior amor pela vida, realizam mais exercícios físicos e têm menos sintomas físicos que aquelas que pensam mais em aborrecimentos.

Além disso, ter gratidão pelos outros é ainda mais poderoso! Por isso, tente também dizer às pessoas o quão é grato(a) por elas. Seligman et al. ( 2005) testou isso e descobriu que uma ‘carta de gratidão’ entregue em uma visita física à pessoa pode ter impacto por até 6 meses depois!

Isso pode impactar também os seus relacionamentos, não apenas os amorosos, ao melhorar a comunicação. Barton et al (2015), por exemplo, viu que a gratidão pode diminuir a propensão ao divórcio. Outro estudo demonstrou que quase 50% das pessoas podem trabalhar mais intensamente, por pura bondade do coração, se sentirem gratidão de seus líderes. Interessante, não?

E aí, que tal colocar alguma(s) destas cinco (5) estratégias em prática ainda esta semana e sentir o quanto ela(s) impactam no seu bem-estar e felicidade? No próximo texto, traremos o outro conjunto de estratégias, não perca!

Ana Carolina Lafuente
Por Ana Carolina Lafuente

Carioca de nascença, paulista de coração, meio brasileira e meio espanhola. Ana Carolina é formada em Publicidade e Propaganda pela ESPM Rio. Apaixonada por comportamento humano, começou a se aproximar da área de Pessoas na empresa júnior da faculdade e não largou mais dela desde então. Descobriu seu amor pelo empreendedorismo e seguiu sua carreira ajudando principalmente startups ou empresas em crescimento exponencial. Atuou em Employer Branding na Stone Pagamentos, tempo em que se especializou no tema através de cursos na ESPM e Lemonade School. Recentemente, concluiu uma formação em Product Management pela PM3 e hoje toca a área de Employer Branding da Collact, plataforma de CRM e fidelização de clientes, detentora do app e diretório ‘Compre Local’ e investida da Stone Pagamentos. Além disso, Ana ama escrever, descobrir diferentes culturas, viajar, conhecer novos lugares, bares e restaurantes, cozinhar, fazer exercícios, yoga e não dispensa um bom café ou uma taça de vinho.