Se você leu meus últimos textos, tem percebido o meu enfoque na temática da felicidade, o porquê buscamos coisas que, na verdade, não nos fazem mais felizes (por mais que tenhamos o hábito errôneo de prever e querer assim) e como podemos, de fato, influenciar positivamente nosso bem-estar e o dos outros.

No texto passado, comentei sobre duas do que chamamos ‘Características Irritantes da Mente’, responsáveis por fazer com que queiramos coisas como um bom trabalho, ter um bom salário/boa saúde financeira, comprar coisas legais, ter o amor verdadeiro, ter o corpo perfeito, ter boas notas, etc… na esperança de que elas nos façam melhor. Mas, diversos experimentos científicos têm provado a invalidade disto.

Neste texto, portanto, dou luz às outras duas características mais marcantes e como podemos minimizar seus efeitos. Boa descoberta!

CARACTERÍSTICAS IRRITANTES DA MENTE #3

Nossas mentes são construídas para se acostumarem com as coisas, elas se habituam. Isto está relacionado ao conceito de ‘Adaptação Perceptiva’, que é o estado de ver o mundo como ele é, o estado de nos tornarmos acostumados ao que vemos ao longo do tempo. Este é o maior fator determinante de um dos nossos grandes vilões: a ‘Adaptação Hedônica’.

A ‘Adaptação Hedônica’ trata de como nos acostumamos às coisas que nos dão prazer e nos deixam mais felizes. Basicamente, todos nós passamos por um processo de nos tornarmos acostumados a estímulos positivos ou negativos a ponto de os efeitos destes estímulos serem atenuados com o passar do tempo.

Acontece que os efeitos positivos que sentimos a partir de algo não ocorre novamente como pensamos, justamente porque nos acostumamos com este ‘novo normal’. Simplesmente, chega um ponto em que as coisas que nos fazem bem (ou que achamos) param de trazer a felicidade que esperamos porque elas reconfiguram nossos pontos de referência para o futuro (lembra que falamos dos pontos de referência no texto passado?).

Duvida? Vamos a alguns experimentos científicos, então. Ditella et al (2010) procurou analisar a adaptação com relação ao salário ao longo do tempo (por 16 anos, na Alemanha) e viu que, de fato, o nível de felicidade atinge uma tendência estável por mais que o salário continue crescendo.

Brickman et al (1978) descobriu, inclusive, que o nível de felicidade de pessoas que ganharam na loteria é apenas ligeiramente maior que o nível das pessoas que não ganharam; ao contrário do que esperamos. Isto porque até elas se acostumam com o dinheiro!

Nos acostumamos também com os nossos relacionamentos, como provou o estudo que trouxemos neste texto. Casais são mais felizes nos primeiros dois anos de recém-casados (‘Efeito Lua-de-Mel’), mas, depois, os níveis de felicidade se equiparam aos dos não-casados. Daniel Gilbert, em seu livro ‘Stumbling on Happiness‘, mostra exatamente como as coisas que são maravilhosas na primeira vez acabam não sendo mais nos momentos subsequentes, porque nos acostumamos a elas.

Como superar essa característica, então? Falaremos mais disto em um próximo texto, mas já dou algumas dicas:

  1. invista mais em experiências do que em coisas (nos acostumamos menos com experiências);
  2. foque inteiramente em e aproveite o momento presente, seja grato(a);
  3. pense em como era sua vida sem aquela coisa ou antes dela, pense na possibilidade reversa de não tê-la;
  4. interrompa o consumo de algo que te dá prazer ou quebre em parte, se possível;
  5. aumente a variedade das coisas que te fazem bem, assim será mais difícil se acostumar a elas.

Então, por que será que continuamos pensando que “quanto mais eu tiver algo, melhor eu estarei”? Isto é explicado pela quarta e última característica.

CARACTERÍSTICAS IRRITANTES DA MENTE #4

Relacionada à anterior, simplesmente não percebemos que nossas mentes são construídas para se acostumar às coisas e para atingir a ‘Adaptação Hedônica’ e, então, pensamos que determinadas coisas que nos fazem felizes hoje nos farão felizes também por um longo tempo.

Sobre isso, Dan Gilbert fala sobre o ‘Viés de Impacto’, ou seja, a tendência de superestimar o impacto emocional de um evento futuro tanto em termos de intensidade como de duração. Outros estudos científicos também procuraram confirmar este conceito.

Eastwick et al (2008) mostrou como nos acostumamos ao término de um relacionamento amoroso ao longo das semanas, apesar de prevermos que ele continuará nos fazendo igualmente mal por um bom tempo. Sieff et ( 1999) viu, inclusive, como as pessoas previam erroneamente sua reação ao descobrir, pela primeira vez, que eram positivos ao vírus HIV da Aids. Elas se mostraram menos angustiadas do que haviam previsto. Por ser algo não frequente, elas não conseguiram ter base suficiente para fazer boas previsões.

Mas isso acontece também com situações mais usuais e repetitivas como os exames de direção, objeto de estudo do Ayton et al (2007). Curiosamente, nós não aprendemos a prever melhor à medida que vamos errando. Ele descobriu que, toda vez que falhamos novamente, nós ainda ‘mispredict’ (prevemos errado) como reagiremos na próxima vez.

Por que será que PREVEMOS TÃO MAL como iremos nos sentir em relação às coisas que nos acontecem? Como podemos superar isso? Falarei de alguns vieses psicológicos nossos e como “calar” as quatro características irritantes da mente em próximos textos. Não perca!

Ana Carolina Lafuente
Por Ana Carolina Lafuente

Carioca de nascença, paulista de coração, meio brasileira e meio espanhola. Ana Carolina é formada em Publicidade e Propaganda pela ESPM Rio. Apaixonada por comportamento humano, começou a se aproximar da área de Pessoas na empresa júnior da faculdade e não largou mais dela desde então. Descobriu seu amor pelo empreendedorismo e seguiu sua carreira ajudando principalmente startups ou empresas em crescimento exponencial. Atuou em Employer Branding na Stone Pagamentos, tempo em que se especializou no tema através de cursos na ESPM e Lemonade School. Recentemente, concluiu uma formação em Product Management pela PM3 e hoje toca a área de Employer Branding da Collact, plataforma de CRM e fidelização de clientes, detentora do app e diretório ‘Compre Local’ e investida da Stone Pagamentos. Além disso, Ana ama escrever, descobrir diferentes culturas, viajar, conhecer novos lugares, bares e restaurantes, cozinhar, fazer exercícios, yoga e não dispensa um bom café ou uma taça de vinho.