Alguns assuntos mais delicados são difíceis de serem tratados, por isso, precisam de mais cuidado durante a abordagem, como o desligamento de um funcionário. Contudo, a demissão humanizada pode ser a prática perfeita para a sua empresa e, claro, para os profissionais. Saiba mais!

Neste texto, queremos mostrar como a demissão humanizada é tão importante quanto o onboarding de novos colaboradores.

Afinal, o processo de desligamento dos trabalhadores é um momento delicado que precisa de respeito entre ambas as partes.

Portanto, veja o que é, seus benefícios, cases de sucesso e como praticar esse tipo de demissão que acontece de forma humanizada, mais fácil e menos indolor possível. A seguir!

Índice

O que é uma demissão humanizada?

Há alguns anos, os departamentos de Recursos Humanos souberam dos benefícios que uma demissão humanizada pode trazer para os empregados e empregadores.

Desde então, esse setor está procurando maneiras de tornar mais simples e menos doloroso o processo de demissão de funcionários.

O conceito de demissão humanizada surgiu para suprir essa demanda que traz à tona a empatia e o respeito à pessoa demitida, no momento da demissão e pós-desligamento.

Nesse sentido, os gestores, líderes, gerentes ou profissionais de RH encarregados de realizar a demissão precisam conduzir o desligamento de maneira cuidadosa, respeitosa e com o máximo de cuidado com a estabilidade emocional do colaborador demitido.

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Exemplos de desligamentos

Para acontecer uma demissão humanizada é preciso lidar com o desligamento de um colaborador, independente do motivo da sua saída. No Brasil, o término de um trabalho pode acontecer de diversas maneiras. Veja alguns exemplos de desligamento que podem acontecer em uma empresa, seja por iniciativa do empregador ou empregado:
  • Pedido de demissão do trabalhador;
  • Demissão sem justa causa e por vontade do empregador;
  • Demissão por justa causa pela razão de uma falta grave provocada pelo funcionário;
  • Despedida indireta, também chamada de demissão por justa causa do empregador, quando a empresa descumpre cláusulas e regras do contrato;
  • Rescisão por acordo, ambas as partes manifestam a sua vontade pelo fim da relação trabalhista;
  • Término de Contrato de Trabalho após um período determinado.
É importante ressaltar que a aplicação da demissão humanizada pode ser realizada em todos esses tipos de desligamentos na empresa.

Demissão humanizada e experiência do colaborador

O que a demissão humanizada tem a ver com a experiência do colaborador? À primeira vista, muitos profissionais podem achar que não existe relação, mas, na verdade, elas estão conectadas. Isso porque as empresas precisam entender que o processo de desligamento faz parte da experiência do colaborador, ou Employee Experience, já que essa situação possui um impacto significativo na reputação da marca empregadora. Se a demissão for de forma humanizada, logo, o impacto negativo poderá ser diminuído e até mesmo evitado. Portanto, invista na demissão humanizada para ter mais chances de garantir uma melhor experiência para os colaboradores, já que eles vão se sentir acolhidos pela empresa.

Demissão humanizada na pandemia

Anteriormente, se já era difícil desligar os funcionários, durante a pandemia esse processo se tornou ainda mais complicado. Durante as medidas, como o isolamento social, muitas empresas tiveram que, inevitavelmente, demitir colaboradores. Aliás, algumas instituições fizeram demissão em massa, sem avisar, colocando todos os demitidos em uma só reunião digital. Todo profissional deve imaginar como é a sensação de se dedicar a uma empresa e, de repente, ser pego de surpresa com a notícia da demissão em meio à pandemia. Inclusive, torna-se ainda mais doloroso receber a notícia à distância, sem nenhuma explicação personalizada, junto de outros colegas e sem chance de pedir uma explicação para o seu caso. Sendo assim, apesar das adversidades da pandemia e as consequências que ela trará para os próximos anos, procure realizar o desligamento de um funcionário de forma humanizada, mostrando o máximo respeito e total cuidado com a saúde mental de cada pessoa demitida.

Demissão humanizada: exemplos reais

Apesar de muitas empresas realizarem demissões em massa durante a pandemia, momento delicado, algumas realizaram essa prática de forma coesa, empática, personalizada e humanizada.

Foi o caso da Stone, startup brasileira de tecnologia que se tornou popular nos últimos anos. Infelizmente, essa empresa precisou desligar 1,3 mil colaboradores em plena pandemia.

No entanto, a startup optou por aplicar ações de demissão humanizada para diminuir os impactos na vida pessoal e profissional dos seus colaboradores. Como:

  • realizou uma videoconferência interna para anunciar que faria um corte de 20% da sua força de trabalho;
  • o anúncio foi feito pelo CEO, Tiago Piau;
  • o motivo das demissões foi em resposta à crise provocada pela Covid-19;
  • cada um dos 1,3 mil funcionários desligados foi contactado individualmente após o anúncio;
  • todos os direitos dos trabalhadores foram preservados;
  • a Stone ofereceu apoio psicológico aos funcionários desligados;
  • a startup manteve planos de saúde e de auxílio-alimentação para os colaboradores demitidos durante 4 meses;
  • foram ofertados os computadores, celulares, contas de Linkedin e auxílio financeiro para os profissionais de acordo com o tempo de casa.

O caso do Airbnb

A gigante empresa de hospedagem, Airbnb, foi um dos casos mais comentados sobre a realização de uma demissão humanizada durante a pandemia.

Fortemente impactada pelos efeitos causados no turismo, o Airbnb precisou demitir cerca de 25% de seus colaboradores durante a pandemia. Brian Chesky CEO e fundador do Airbnb, escreveu uma carta aberta aos colaboradores da empresa que chamou muita atenção. Confira:

“Hoje, eu preciso confirmar que estamos reduzindo o quadro do Airbnb. Eu vou compartilhar todos os detalhes que puder sobre como eu cheguei a essa decisão, o que estamos fazendo para aqueles saindo, e o que acontecerá agora… Eu realmente sinto muito. Por favor, saiba que não é sua culpa. O mundo nunca vai parar de procurar por qualidades e talentos que você trouxe para o Airbnb…que ajudaram a fazer o Airbnb”.

Em outro trecho, o CEO do Airbnb disse: “Eu quero agradecê-lo, do fundo do meu coração, por dividi-los conosco… O resultado é que vamos nos despedir de colegas que amamos e valorizamos. Temos grandes pessoas deixando o Airbnb, e outras empresas terão a sorte de tê-los…. Nossa missão não é meramente sobre viajar. Quando começamos o Airbnb, nosso slogan era ‘Viaje como um humano’. A parte humana era sempre mais importante que a parte da viagem. Nós temos como razão o pertencimento, e no centro de pertencer está o amor”. Leia a carta completa aqui.

Em alguns trechos desta carta, podemos notar que o CEO lamentou ter que reduzir o quadro de funcionários do Airbnb, que não foi difícil chegar nessa decisão e agradeceu fortemente todos os profissionais que se dedicaram à empresa.

Essa carta aberta é um dos exemplos de demissões humanizadas que aconteceram durante a pandemia, já que o fundador da empresa explica todos os motivos das demissões e realizou desligamentos caso a caso.

Além disso, o Airbnb também ofereceu aos colaboradores demitidos a manutenção de seus planos de saúde por mais algum tempo, a doação de seus notebooks para que cada profissional pudesse usar o equipamento para procurar um novo emprego, ajuda na recolocação no mercado, cartas de recomendação, entre outras ações.

Apesar disso, o Airbnb se saiu bem mesmo durante uma situação complexa de uma demissão inesperada, mantendo a humanidade no processo e o reconhecimento positivo de sua marca empregadora no mercado.

Impactos na empresa

Provavelmente, você pode estar se questionando como é possível fazer uma demissão humanizada e quanto custa toda essa dedicação.

Nesse caso, é importante lembrar que a humanização no processo de desligamento de funcionários pode, sim, dar trabalho adicional, mas os custos em relação à visão da marca empregadora ser reconhecida pelas ações positivas durante as demissões são imensuráveis.

Afinal, a demissão humanizada faz com que os colaboradores demitidos carreguem uma imagem agradável após a saída da empresa, propagando a reputação positiva sobre a marca empregadora entre outros colegas profissionais, mesmo após o desligamento.

Segundo dados de uma pesquisa do Glassdoor, publicada no site VocêRH, a experiência de como é realizado o tratamento durante o desligamento é um fator decisivo para 65% dos profissionais ao avaliarem uma empresa.

Assim como, na mesma pesquisa, foi revelado que mais de 70% dos entrevistados analisam as opiniões sobre como a instituição trata as demissões e passam a considerar esse ponto na hora de decidir trabalhar na organização.

Inclusive, muitos colaboradores que tiveram demissões humanizadas durante a pandemia voltaram a fazer parte dos quadros de funcionários das mesmas empresas que realizaram o desligamento, quando as mesmas voltaram a contratar novamente.

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Dicas de como realizar uma demissão humanizada

Como desligar um colaborador de forma humanizada? Agora, você já sabe o que é demissão humanizada, a sua ligação com a experiência do colaborador, exemplos desse tipo de prática e quais são os benefícios, então, mostraremos como realizar essa estratégia na sua empresa. Confira!

1.Mapeie e faça o planejamento

O RH precisa saber que o processo de demissão humanizada faz parte do Employee Experience, portanto, esse departamento precisa criar esse processo para guiar a liderança ao aplicar esse método.

Portanto, o setor de Recursos Humanos precisa mapear todo o processo de demissão humanizada e fazer um planejamento, visando que todos sigam o mesmo padrão para os funcionários desligados tenham uma experiência positiva e similar.

2.Entregue uma boa experiência do início ao fim

Antes de tudo, é preciso pensar no início ao fim da jornada do colaborador, ou seja, desde quando o colaborador conhece e entra na empresa até o momento que ela deixa a empresa, seja por demissão voluntária ou involuntária.

Mesmo que o funcionário tenha tido uma experiência positiva no tempo que passou na empresa, se a demissão humanizada não for realizada, ele pode ter uma má impressão sobre a marca empregadora.

Por isso, indique quem fará o desligamento e planeje como será a reunião, a fim de evidenciar todo o cuidado que a empresa tem com o profissional, desde o início até o fim.

É necessário explicar com clareza os motivos do desligamento, assim como levar toda a documentação necessária, os cálculos dos valores a serem pagos (se houver), informações de contato e canais de dúvidas para o colaborador acessar posteriormente.

Se a demissão for presencial, reserve um local discreto, que não gere interferências e nem circulação de outras pessoas. Além disso, não se preocupe com o tempo da reunião, afinal, o importante é deixar o colaborador assimilar a ideia e fazer possíveis questionamentos.

3.Procure amenizar esse momento difícil

Apesar de sabermos que a demissão não é um momento fácil, porém, a demissão humanizada pode ajudar a amenizar esse cenário.

Esse processo delicado é capaz de mexer com o emocional do profissional desligado e de quem realiza o desligamento.

Por isso, tenha paciência e explique todos os pontos, tire todas as dúvidas, tenha cuidado com as palavras e fale do desligamento com suavidade, bem como todos os direitos do colaborador.

4.Responsabilize quem realizará a demissão

Quem é o responsável por realizar a demissão humanizada? Apesar da área de RH mapear os processos e marcar as diretrizes a serem seguidas durante as demissões, é importante que todas as lideranças da empresa estejam aliadas com o tema e saiba os impactos dessa estratégia, sejam positivos ou negativos.

Além disso, é interessante disponibilizar ferramentas para gestores e colaboradores, como documentos para guiar o responsável durante o momento da demissão.

5.Ofereça ajuda e suporte para o profissional

Durante o processo da demissão humanizada, o colaborador precisa sentir que pode contar com o apoio da empresa. Uma das formas de fazer ele perceber isso é ajudá-lo a se recolocar no mercado de trabalho.

Para isso, ofereça uma carta de recomendação, indique o ex-colaborador para outras organizações ou ofereça ajuda de outplacement, um serviço que inclui a análise de currículo, construção e orientação para marca pessoal, preparação para entrevistas, entre outros recursos.

Além disso, vale também oferecer, se possível, ferramentas, como notebooks, monitores, headphones, entre outros, como uma forma de ajudar os colaboradores demitidos a alcançarem uma nova colocação no mercado.

Aliás, ampliar por algum tempo a validade do plano de saúde e outros benefícios também facilita o funcionário se preparar para um novo cenário.

6.Dê ao colaborador a chance de despedida

Se não for caso de demissão por justa causa, então avalie como e quando o trabalhador pode fazer a retirada dos seus pertences do escritório, caso ele tenha algo no ambiente físico da empresa.

Aliás, a liderança direta do ex-funcionário, após a demissão do mesmo, precisa comunicar imediatamente à equipe que determinado colaborador não faz mais parte do time e dar uma explicação básica sobre o desligamento.

Essas atitudes simples, além de evitarem boatos sobre demissão, abrem as portas para o profissional se despedir de outros colegas.

7.Aprimore o processo de demissão humanizada

É muito importante que o processo de demissão humanizada seja sempre revisto, aprimorado e melhorado de acordo com as necessidades da empresa e dos colaboradores.

Sendo assim, é sempre importante tentar saber os pontos de melhorias, como anda o mercado (concorrência), realizar reuniões com integrantes de diversas áreas, entre outros.

8.Realize entrevistas e pesquisas após o desligamento

Já ouviu falar sobre a entrevista de desligamento? Ela é uma conversa estruturada entre um membro da equipe do RH e o colaborador que será desligado da empresa, seja por vontade própria ou por demissão.

Esse tipo de entrevista pode ser feito de forma anônima, como uma última chance do colaborador dar feedbacks a respeito da instituição.

Essa prática é muito importante para a empresa, já que dá a oportunidade de avaliar os processos, desempenho dos líderes, clima organizacional, equipes, entre outros quesitos que poderão melhorar a experiência dos colaboradores que permanecem na organização.

Aliás, faça pesquisas online ou presenciais com os profissionais após a demissão, que contenham perguntas que busquem entender os motivos do desligamento.

9.Use os dados coletados

Após realizar pesquisas e entrevistas com os funcionários desligados, garanta que o uso dos dados coletados sejam usados nas melhorias da empresa, a fim de garantir que os colaboradores atuais tenham boas experiências nos pontos indicados pelos ex-funcionários.

10.Implemente um programa de ex-colaboradores

Também chamado de programas de alumni, essa estratégia foi desenhada para manter o contato com ex-funcionários, informando as novidades da empresa e contribuindo para a continuação do vínculo entre colaborador e empregador.

Esse tipo de programa possui foco no engajamento do relacionamento posterior, na conexão mútua, no network entre profissionais e ex-colegas de trabalho, além de sentirem orgulho de terem pertencido àquela instituição.

Após a demissão humanizada, pergunte ao colaborador se ele gostaria de continuar mantendo contato com a empresa após o seu desligamento, através do programa de ex-colaboradores.

Inclusive, nesse programa é possível dar depoimentos, receber informações relevantes da empresa, newsletters, convites para eventos de reencontros exclusivos, entre outras ações disponibilizadas pela empresa.

Afinal, nunca sabemos como será o amanhã, então ex-colaboradores podem voltar a trabalhar na organização. Além disso, os ex-funcionários podem propagar sua marca empregadora para novos talentos, se tornando ótimos embaixadores, e até mesmo indicar produtos e serviços para gerar novos negócios.

Por fim, quando há um desligamento, nunca é fácil para nenhum dos lados. Porém, quando a empresa realiza a demissão humanizada pode tornar o final da experiência do colaborador muito melhor. Lembre-se, no final das contas, aquela frase faz todo sentido: “It’s all about people. It’s all about experience.”

Suzie Clavery
Por Suzie Clavery

Formada em Desenho Industrial e Pós Graduada em Marketing pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Há mais de 10 anos uniu sua paixão pelo Marketing, Comunicação e Branding com a área de Recursos Humanos, sendo uma das primeiras profissionais a atuar efetivamente com Employer Branding no Brasil. Possui certificação internacional em Employer Branding pela Employer Branding Academy. Co-fundadora do Employer Branding Brasil (www.employerbranding.com.br), o maior ecossistema de canais sobre Employer Branding do País. Autora do primeiro livro sobre Employer Branding do Brasil Isso é Employer Branding?! Um livro para (des)construir tudo aquilo que você (acha que) sabe (ou não) sobre o tema, pela Editora Leader (2020). Atualmente é Gerente Sênior de Employer Branding & Experience do UnitedHealth Group Brasil.